Junho 25, 2008 by allrizz
Certo, não ficamos velhos do dia para a noite, mas há um momento em que o indivíduo pressente que chegou lá. Um dia, eu me vi no espelho e me perguntei: Quem é este velho me olhando? Notei várias manchas escuras na face, algumas verrugas das quais ainda não me apercebera; vi o canto de um dos olhos meio caído (Ah, porisso sempre me perguntam se estou cansado, embora possa estar sentindo-me muito bem disposto).
Vários pelos brancos ficaram visíveis onde antes não os havia: braços, esterno, púbis…As polpas dos dedos passaram a ficar empreguilhadas, surgiu-me discretíssimo tremor no indicador na mão direita, a visão apresenta névoa central que requer ser contornada para que eu possa ler.
O pior ainda estava por vir. Passei a ser chamado de vô, quando já me incomodava o pretensamente carinhoso apelativo tio.
Estou a ponto de fazer vários implantes dentários. Valerão a pena? Talvez sua única utilidade venha a ser poder comer milho na espiga, já que as suas virtudes estéticas não terão apreciadoras. Valerá a pena pagar tão caro por um prazer tão raro?
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Junho 25, 2008 by allrizz
Nestes tempos de mau uso da língua portuguesa, ler Saramago é um refrigério para a alma. O uso das palavras, não apenas pelo valor semântico mas também da sonoridade peculiar de cada uma, é uma arte que eu já considerava perdida.
Autores como Saramago contam-se pelos dedos das mãos. Lembro-me de ter sentido igual prazer ao ler Euclides da Cunha, vários trechos de Machado de Assis, William Faulkner e Lawrence Durrell. Algo nesses autores nos convida a continuar lendo-os pela sua musicalidade e ritmo inerentes às suas narativas.
É óbvio que não é àtoa que Harold Bloom coloca Shakespeare no alto do pedestal. Basta lembrar o monólogo de Hamlet ou a cena das bruxas em Macbeth. Mas o espantoso é que Shakespeare é todo assim: quanto mais se lê, mais se quer reler e voltar a vê-lo e ouvi-lo declamado e representado. Lembrei-me agora de John Gielgud na versào fílmica de “The Tempest”…
Saramago, além de nos deliciar com sua prosa, remete-nos ao paraíso da literatura, por analogia.
Tags: saramago
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Junho 25, 2008 by allrizz
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